Friday, March 06, 2015

Alceu Valença - Agalopado

Alceu Valença - Maria dos Santos (1977)

Letras Vermelhas, um espaço para a novíssima poesia brasileira

6 de março de 2015 - 13h14
   

Letras vermelhas é uma página dedicada à divulgação de novos poetas brasileiros, de diferentes linhas de pesquisa estética, que publicam seus poemas em blogues, sites, revistas literárias e livros editados por selos independentes.
       

Arquivo pessoal
Chiu Yi Chih é escritor, performer e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo Chiu Yi Chih é escritor, performer e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo
     
Os jovens poetas participam de recitais e festivais de poesia, que acontecem em espaços culturais, bares, livrarias e adotam várias formas de comunicação poética, do poema visual à performance, da poesia cantada ao oriki, ao haicai e ao poema em prosa.

Os temas abordados por eles vão da denúncia da violência urbana à celebração do corpo, do pensamento, da afetividade e da própria linguagem poética.

A partir desta edição, Letras vermelhas apresentará aos leitores alguns dos autores que se destacam no panorama da novíssima cena literária brasileira pela originalidade e consistência de seu trabalho.

O poeta que inaugura a seção é Chiu Yi Chih, nascido em 1982 em Taiwan e radicado no Brasil. Escritor, performer e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é autor do livro Naufrágios (Rio de Janeiro: Multifoco, 2011) e criador da Metacorporeidade e do LOZ-2962 Studio com o escultor Irael Luziano.

Chiu escreve no blog Philomundus. A seleção dos autores apresentados em Letra vermelha é feita pelo poeta e professor de literatura portuguesa Claudio Daniel, que foi curador de literatura e poesia no Centro Cultural São Paulo e hoje é colunista da revista Cult.

Veja três poemas de Chiu Y Chih ilustrados com obras de Irael Luziano:

Ao limite do ruído enclausurado


paletó esfarelado na brisa da insônia quando a nuvem se alarga entre flocos de cimento e nenhum solo propício se ergue diante do rubor das árvores em meio ao redemoinho de magnésios e aminoácidos de uma cidade entulhada de vesículas impermeáveis a poucos metros de um corpo irreconhecível que quase não fala nem se cala mas se engalfinha sob alérgicas ferragens nos pés daquela malha de sobrancelhas que receosamente se esquiva por detrás dos lençóis embolorados nas espinhosas azinheiras com os biombos que dilatam aquele solitário monstro enquanto todos os anteparos se entregam aos sonhos retorcidos numa abstinência inexplicável de gastronômicos asfódelos fincados quase ao fim do interminável precipício que obscurece as veias apagando os temores de tal latitude de sombras então não havendo pensamentos que não tenham sido triturados pelas raízes da própria irrealidade quando ninguém mais se contenta em ser apenas efêmera transparência fingindo-se impassível ânsia de ser-sombra ou indefinidamente aniquilado entre ossaturas pisoteadas com clavículas em incêndio por cima de estraçalhamentos como se mais do que mero enredo de panacéias assim pudesse atravessar o próprio som das mortes ilusórias a tal ponto de travestir-se numa outra identidade passível de ser brevemente dispersada em gravuras metálicas ou mesmo nas colagens de genitálias desfiguradas tal qual a desolada visão de algumas criaturas que nos leva à suspeita de não sei que desequilíbrio dos sulcos linfáticos no instante em que ainda se entrelaça este sussurro de máquinas com dióxidos que se desenrolam sobre a efígie da paixão quando a tal tempestade se encasula nos tijolos ao mesmo tempo que uma lufada de vento sorrateiramente enclausura as luzes que mal escorrem entre liquefações e fugacidades porém sempre atirando os cordões da perversidade daqueles que se amam relatando suas histórias sem que entretanto qualquer uma delas possa ser fielmente reconstituída da mesma maneira em que contemplamos a fatalidade quando repentinamente um jovem desprevenido pode sucumbir ao desejo de se abandonar à deriva como se jamais houvesse carregado consigo seus diários pessoais ao se ver coagido naquele incipiente realismo de cadernos improvisados sendo que cada passo se revelaria vulnerável aos ataques furibundos de arrancar a própria pele sem nunca saber ao certo se chegou a esta cidade por um caminho interditado quando ele mesmo se vê incapaz de escrever seu próprio nome considerando que tal falha teria sido impossível a menos que uma peça de vidro o tenha atraído para aquele abismo azulado onde tal angústia seria como olhar o fundo de uma tampinha de aço em que talvez pudesse reencontrar nesta pérfida erosão algum rosto indefinido a perder-se de vista murmurando apenas primavera-clamor tanto quanto uma pedra poderia se encolher nas margens da vaga luminosidade ou mesmo tais nuvens que se sonhariam abraçadas se dissessem uma à outra inúmeras asperezas naquela música em que todos estaríamos excitados quase a estremecer de terrores e prazeres diante de tantas vidas amaldiçoadas em confronto com o único horizonte que seria o desastre que nos absolveria daquela arquitetura de ínfimos arcos tingidos pela eterna hipótese de sonhar com uma paisagem inextinguível de tal modo que sejamos restituídos à informe moldura pois sendo então inútil reter qualquer substância assim que num segundo o ar começa a se expirar em milagrosas diluições com os estrépitos da infâmia sem que se possa ouvir o próprio silêncio das árvores quando ainda ele deveria suspirar de vileza se vislumbrasse agora um esquálido cavalo debaixo de alguns galhos ou se sua lâmina aguçada tivesse redescoberto a sombra de sua própria mãe a suplicar-lhe misericórdia precisamente naquela estrada limítrofe onde o cavalo mais pálido do que magro teria sido um presságio que neutralizaria o lado obscuro da noite quando somente um ponto minúsculo lhe serve como vestígio no meio do deserto onde os corpos inteiramente desnudos parecem estar incinerados com o rosto de seu pai que então lhe desvelaria o crepúsculo de sua própria humanidade se por acaso seu espírito fosse uma raposa suspendida nos ganchos da máscara com que se aspira o último prepúcio extraído da gola prisioneira sem a qual a frágil ventania provavelmente se dissolveria diante dos sobrados ressentidos após sucessivos pesadelos de sangria onde um rosto poderia se desdobrar numa mórbida infinidade de outros rostos atrás dos quais ter-se-ia vislumbrado um assassino de sonhos desaparecendo com miríades de esconderijos durante a cremação dos cristais de fogo no meio da qual os homens se desencaminhariam em virtude dos estilhaços que submergem sob o enxame de musgos que atacam o círculo adormecido das correntes como se todas as pálpebras pudessem se recurvar até se deixarem absorver pelo negrume que subsiste abaixo das escalas de altiplanos escumosos ou mesmo assim sendo pressionadas voluptuosamente debaixo das conchas de grutas retesadas ao som das folhas aspiradas pela pólvora admirando-se tal qual imaginação ruidosa dos cérebros naquele alvoroço tão infantil de se mesclar às rochosas lágrimas do mastro demoníaco e então apenas se recurvando a ponto de ser fulminado pelos sinos de sangue ferruginoso e ser arrastado para além dos olhos das lagunas derrisórias

Ossivorous

enquanto as pálpebras escarnecidas ao galope dos mausoléus estremecem aquele trilho enrugado das lembranças uma menina com suas veias auspiciosas tritura a pedra de riso condenável no turvo deleite dos dias que se estendem até o ápice das visões mais distantes como se nenhuma sandália de platina pudesse ser resgatada durante a crispação do torso aracnídeo sobre essa algaravia insustentável de tantas lástimas expurgadas quando nem mesmo nossos espasmos saberiam atravessar o limiar das efusões insulares daquela muralha de enxofre onde pela última vez ainda se eclipsavam as gramíneas das vultosas encenações sendo que um promontório bordejado pelas cornijas de barba equina se escureceria aos látegos dos sorvedouros encefálicos daquele forasteiro arqueado no recôncavo em fúria tal como se um caudaloso e inconsolável quebra-mar se agigantasse em meio às profusões de agulhas que se arrastam sob a desfiadura dos salgueiros gaseiformes acima de todas as tábuas enfunadas pelo estrondo do recém-dissecado dédalo de tal modo a desembarcar rumo ao irremediável quadrilátero à beira-vazante do gozo originário das amputações cubiculares com as fluorescências de uma ave fibrilosa que nunca se cansa de morrer em sua própria queda astronômica

Arboreous

sob a eternidade de uma sombra sem asas circula o pássaro dos candelabros de seus beiços infames e a cada pausa redobrada dessa claridade cinzenta se descortinam os tentáculos daquela planície esganiçada como se todos os espelhos suplicassem com a navalha de suas penugens brumosas assim quando os olhos começam a regurgitar as tapeçarias da impetuosa caverna enquanto involuntariamente ainda se recolhem as mãos das flores sudoríferas desenfaixando a concha dos rastros vaticinadores por meio da escoriação inumana de seus ouvidos onde em raras ocasiões até as bandeiras imprecatórias pareceriam irromper de dentro do suspiro das constelações em desalinho desfolhando sem nenhum remorso o grumo das sereníssimas conspirações

LOZ
Os três poemas com as imagens de suas respectivas esculturas são trabalhos do LOZ (Chiu Yi Chih e Irael Luziano). Ambos artistas fundiram suas linguagens e realizam conjuntamente obras em escultura, performance, poesia e vídeo em torno da proposta da “Metacorporeidade”. Recentemente publicaram juntos o livro “Metacorporeidade” (Editora Córrego) com prefácio de Cláudio Willer e texto de Luis Serguilha. Suas obras se encontram no www.loz2962.com .
http://www.vermelho.org.br/noticia/260123-11
 

Thursday, February 26, 2015

Água Grande


Ednardo


A primeira vez que eu vi São Paulo
Da primeira vez que eu vim São Paulo
Fiquei um tempão parado
Fiquei um tempão parado
Esperando que o povo parasse
Esperando que o povo parasse

Enquanto apreciava a pressa da cidade
A praia de Iracema
Veio toda em minha mente
Me banhando da saudade
Me afogando na multidão
Eu vim São Paulo
Se afogando na multidão
Eu vi São Paulo

Janeiro e nada
Fevereiro e nada
Marçabril e águagrande despencou
Um aviso de chuva me chamou
Marçabril e águagrande despencou
Um aviso de chuva me chamou
Adeus São Paulo
Está chovendo pras bandas de lá
Também estou com pressa
Está chovendo pras bandas de lá

Água Grande (Ednardo)

Estaca Zero (Ednardo e Climério Ferreira)

Nossa irmã lua





Noémia de Souza

Uma irmãzinha meiga que nos cubra
a todos com a quentura terna e gostosa
do seu carinho...
que entorne toda a sua claridade
sobre as nossas tristes cabeças vergadas
e, como um feitiço forte e misterioso,
nos afugente as raivas fundas e dolorosas
de revoltados,
com a sua morna carícia de veludo...
sua enorme mão,
luminosamente branca, consegue-nos tudo.
E sob o seu feitiço potente, serenamos.
E pouco a pouco, momento a momento,
Sossegando vamos...
Fechando nossos olhos pacientes de esperar,
Já podemos vogar no mar
Parado dos nossos sonhos cansados...
E até podemos cantar!
Até podemos cantar o nosso lamento...
De olhos para dentro, para dentro de nós,
Sentimo-nos novamente humanos,
Somos nós novamente,
E não brutos e cegos animais aguilhoados...
Sim. Nós cantamos amorosamente
A lua amiga que é nossa irmã.
– Embora nos repitam que não,
nós o sentimos fundo no coração...
(que bem vemos
que no seu largo rosto de leite há sorrisos brandos de doçura
para nós, seus irmãos...)
só não compreendemos
como é que, sendo tão branca a nossa irmã,
nos possa ser tão completamente crista,
se nós somos tão negros, tão negros,
como a noite mais solitária e mais desoladamente escura...
Se me quiseres conhecer
Se me quiseres conhecer,
Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.
Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura...
torturada e magnífica
altiva e mística,
africa da cabeça aos pés,
– Ah, essa sou eu!
Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de africa,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro
E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de africa congelou

Seu grito inchado de esperança.

  
Nasceu em Catembe, Moçambique, em 1926 e faleceu em Cascais, Portugal, em 2002. Poeta, jornalista de agências de notícias internacionais viajou por toda a África durante as lutas pela independência de vários países. Só publicou tardiamente seu livro de poesias Sangue Negro, em 2001.
Não existe edição brasileira do livro  Sangue Negro

Wednesday, February 25, 2015

Tuesday, February 24, 2015

Friday, February 13, 2015

Bloco faz homenagem a Athos Bulcão em festa na próxima terça-feira

Criado por um grupo de amigos poetas, o bloco Rejunta meu Bulcão desfilará pela primeira vez, na próxima terça-feira, em homenagem ao artista. A característica pomba dos azulejos da Igrejinha marcará presença nas fantasias


 postado em 13/02/2015 06:15 / atualizado em 13/02/2015 07:58


Eles pegaram a argamassa da alegria e decidiram ir às ruas da capital, unindo brasilienses e quem mais se interessar por uma festa carnavalesca. Neste 2015, o bloco “Rejunta meu Bulcão” desfila pela primeira vez em Brasília, sem apoio do Governo do Distrito Federal (GDF) ou de empresas. Por dois anos, ele existiu apenas nos corações e nos repertórios de marchinhas de um grupo de amigos. Eles criaram o hino da folia, que mistura elementos característicos da cidade, como a tesourinha, a Baratinha e o Pacotão, e cujo integrante principal é a pomba figurativa dos azulejos de Athos Bulcão.

A ideia surgiu em 2013, quando a poetisa Marina Mara, 35 anos, vivia no Rio de Janeiro. Ela e cinco amigos, que também tinham morado em Brasília, sentiam falta de um carnaval de rua com brincadeiras e de um bloco completamente brasiliense. Entre uma conversa e outra, saiu a letra da marchinha em ritmo de samba-enredo: “Rejunta, rejunta, rejunta meu Bulcão!”. Desde então, a canção ficou na ponta da língua e, a cada festejo, Marina e os amigos entoam a música. Por dois anos, o bloco existiu apenas no gogó. “Quando a gente se deu conta, todo mundo já sabia o hino”, comentou.
Breno Fortes/CB/D.A PressOs amigos Vanderlei e Mana Gi celebram a união de poesia e carnaval do bloco Rejunta meu Bulcão


A proposta do grupo é levar arte e cultura para as ruas da capital com um toque especial dos confetes e das serpentinas. Outros artistas e poetas de Brasília se uniram aos seis foliões. Eles planejam fazer intervenções poéticas, como o projeto “Troco poema por sorriso”, de Marina, protestos poéticos, levar bolas de sabão e pernas de pau. “Mesmo quando morava lá (Rio), a gente vinha passar carnaval aqui. Brasília é uma cidade diurna e eu sentia falta de um bloquinho onde cada um faz a fantasia e pode levar as crianças”, disse Marina.

CANTE JUNTO!

Marchinha do bloco:

Rejunta!
Rejunta!
Rejunta meu Bulcão!
A pomba da
A pomba da
A pomba da igrejinha
A pomba gira
A pomba gira
A pomba gira na tesourinha
No carnaval
A danada da tesoura
Cortou a minha asa
E também
Da pomba-rola
Dizendo que azulejo
Não é lugar de pomba não
Rejunta meu bem rejunta
Rejunta meu Bulcão
Pararã pam pam
Rejunta!
Rejunta!
Rejunta meu Bulcão!
A pomba da
A pomba da
A pomba da igrejinha
A pomba gira
A pomba gira
A pomba gira na tesourinha
Pomba ficou de mal
Da senhora tesourinha
Que cortou seu barato
De sair na Baratinha
Pois sem as penas
Só dá pra sair no Pacotão
Rejunta meu bem rejunta
Rejunta meu Bulcão
Pararã pam pam
Rejunta!
Rejunta!
Rejunta meu Bulcão!


Programe-se
Bloco Rejunta meu Bulcão

Dia: 17 de fevereiro
Horário: 16h
Local: Praça dos Prazeres, quintal amoroso do Balaio Café, 201 Norte

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