A vida polêmica do poeta e frontman das bandas Libertines e Babyshambles
não é fácil de figurar. Pete Doherty, que já foi namorado de Kate Moss e
Amy Winehouse, vive uma realidade conturbada, envolvendo drogas,
temporadas em prisões, clínicas de reabilitação, brigas e overdoses.
Catalizadora de manchetes, sua personalidade causa estranhamento, porque
evidencia o paradoxo do mainstream midiático em constraste com uma alma
sensível, reclusa e reflexiva.
Apesar
de ser mais conhecido por sua música (e pelos escândalos divulgados nos
tablóides ingleses), Doherty nutre um profundo gosto pela literatura e
pela poesia e vem registrando em cadernos e diários - por anos a fio - a
verdadeira essência de sua natureza, os impactos do vício sobre sua
vida e trabalho, bem como as restrições e as exigências de uma sociedade
em busca de espetáculo em tudo o que se move. Com base nesses diários,
a jornalista cultural e escritora britânica Nina Antônia trouxe ao
público o gênio errante de Doherty. No livro
From Albion to Shangri La
ela edita os fluxos e refluxos de consciência que emergiram em Pete sob
o efeito de heroína durante sete anos de turnês, de 2008 a 2013. Esse
material transcrito e organizado traduz a beleza de um olhar impiedoso
sobre o vazio da própria miséria. “Pete é um personagem efêmero,
mercurial. É possível ouvir sua voz nessas páginas, nos redemoinhos de
tinta e sangue, é possível captar os meandros da madrugada e os
arrependimentos dos inícios das manhãs”, conta Nina em entrevista
exclusiva ao
Correio.
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| From Albion to Shangri La, ainda sem edição brasileira |
Sobre
o gosto por personagens junkies e transgressores, ela explica: “prefiro
escutar as vozes dissidentes e da linhagem de rebelião de Jean Genet,
Willian Burroughs, Lenny Bruce, Oscar Wilde, Rimbaud, Marjorie Cameron,
Rosaleen Norton, Kenneth Anger. Prefiro qualquer um que tenha desafiado
a sociedade com a sua arte, porque eu também estou em desacordo com
ela”. A editora, que também escreve para as revistas Uncut e Mojo, já
havia conquistado o público em 1987, com biografia do guitarrista do
New York Dolls
Johnny Thunders… In Cold Blood.
Não menos junkie e sensível que Doherty, Thunders foi uma das almas
mais livres da América dos anos 1970, o que despertou o interesse da
jornalista de Liverpool.
In Cold Blood está sendo adaptado para o cinema nos estúdios de Hollywood em Los Angeles.
Voltando a Pete
, From Albion to Sangri La
oferece uma perspectiva singela da realidade crua de um Orfeu
pós-moderno, dá ganho à voz livre de um filho da boemia imaginária e
romatizada dos nossos tempos, colocando Doherty em pé de igualdade com
autores como Burroughs, Ginsberg e Kerouac. A obra foi recém lançada na
Inglaterra, mas ainda não possui edição brasileira.
Confira entrevista com Nina Antônia
P
or que escrever sobre Pete Doherty e Johnny Thunders?
Direciono
meu olhar para uma certa autenticidade nos artistas com quem trabalho e
escrevo sobre. Não estou particularmente motivada por termos
convencionais de sucesso, mas por músicos e personagens que vivem e
criam em seus próprios termos. Isso se reflete no trabalho de ambos,
Johnny Thunders e Peter Doherty, ainda que suas produções sejam bastante
diferentes.
Há alguma conexão entre eles?
Não, nenhuma. Exceto que eles vivem por suas próprias regras. E ambos têm uma propensão ao uso do chapéu.
Por que essa predileção por artistas transgressores?
Apesar
de ser muito bem comportada, sou o tipo de pessoa que - sem motivo -
atrai a atenção dos guardas de segurança. Essa coisa de liberdade de
pensamento é um conceito perigoso e quase inexistente. Um desejo por
compromisso nos é imposto diariamente… Não estou dizendo que devemos ir
além da lei ou agir de forma imoral, digo que não devemos comprar uma
cultura mainstream, sem um pensamento ou de sabedoria perceptivelmente
duvidosa.
Como foi a edição desse material manuscrito?
Editar
os diários de Pete foi uma viagem de assimilação de 7 anos. Não foi
deliberado, não havia um plano. Simplesmente evoluiu através discussões e
interesses mútuos. A primeira vez que visitei a casa de Pete, lembro de
olhar para sua coleção de livros, tentando descobrir quem ele era
através daquele monte de livros de bolso espalhados pelo chão do quarto.
É possível dizer muito sobre as pessoas através de seus livros. Se
alguém não possui um livro sequer, isso é preocupante...
Qual a importância de Pete Doherty?
Pete
é uma figura cultural importante, seus escritos são verdadeiramente
notáveis e a sua voz é uma das que precisam ser documentadas, através da
música, da arte e da literatura. Doherty é um indivíduo
verdadeiramente talentoso que vive em uma era implacável. Ele não me
parece dedicado à fama. Amadureceu e é uma pessoa inerentemente
criativa, que cria continuamente e vive uma vida boêmia e artística.
Você acredita que a tríade fama música e vício são interligados?
A
tríade de fama, música e vício me soa mais como uma construção forçada
do que uma realidade tangível. Qualquer um pode ficar viciado em drogas
sem ser famoso ou músico. Talvez essa ideia fosse mais pertinente na
década de 1960 e início dos anos 1970, quando as drogas eram menos
disponíveis para a população em geral que para pessoas como Keith
Richards e Brian Jones. As drogas eram um pouco menos tangíveis,
envoltas em uma mística distante. Mas a partir da era do punk em
diante, quando as drogas pesadas tornaram-se disponíveis e acessíveis
nas ruas , isso deixa de ser verdade. Houve uma época em que a cocaína
era considerada um luxo… Vício de príncipes e pop-stars, não é mais o
caso há muito tempo e o mesmo pode ser dito sobre a heroína, que saturou
os EUA depois da Guerra do Vietnã e chegou ao Reino Unido no início de
1980.
O mainstream aniquila poetas? Como o caso de Jim
Morrison e outros poetas sensíveis que utilizavam a música como veículo
para suas palavras?
O mainstream sempre destruiu poetas.
Como está, atualmente, a cena Punk no Reino Unido?
Se
houver uma cena, eu não estou envolvida nela. Cresci numa época em que o
punk estava associado à figura de Johnny Thunders e os Heartbreakers…
A melhor coisa sobre punk dos 70 é que ele quebrou algumas barreiras e
criou uma onda de novas bandas, gravadoras independentes e editoras. Foi
um tempo mais livre… Mas hoje a concepção que as pessoas têm do punk é
muito rígida.
A música que eu mais amo, em sua maior parte, está
fora dessa restrição. New York Dolls, Heartbreakers, Cramps foram bandas
altamente individualistas. No momento em que você precisa começar a se
encaixar, o movimento se perde. Atualmente, o punk é uma indústria no
Reino Unido, não uma anarquia. Penso que se punk é quem desafia a
sociedade, Rimbaud foi um punk, Baudelaire foi punk (ele tingia o cabelo
de verde!)… E eles nunca usaram uma calça bondage. Qualquer coisa que
se torne uniforme não me interessa.
Duas perguntas para Pete Doherty
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| Frontman do Babyshambles e Libertines conta como é o impiedoso mundo da fama |
Quando a música, a literatura e os livros se tornaram importantes para você?
Quando
percebi que era a única forma de eu me encontrar. Gastei muito do meu
tempo criativo me contradizendo, procurando por liberdade enquanto
aprisionava a mim mesmo. O processo de criação rejuvenesce o espírito, o
que justifica a existência. Ter um par de músicas a caminho me realiza,
é quando minha alma está curada, ainda que a criatividade venha da
melancolia. Quando você está feliz e com uma vida plena não há tempo
para criar, você não precisa disso porque está vivendo a sua vida.
É difícil lidar com a fama?
Eu
já vivia isso na minha cabeça, então estava preparado para ela, mas era
tudo fantasia… Tudo o que aconteceu foi a realidade se transformando na
fantasia que eu criei. Tudo o que nós imaginamos, sonhamos na calada da
noite, falamos sobre, conspiramos sobre… Através das canções aconteceu.
É um troço estranho se tranformar numa figura pública. Assinar um
contrato de gravadora te coloca nas mãos de outra pessoa e você
automaticamente cessa o tipo de vida que havia te proporcionado criar
aquelas músicas bonitas e legais. Por tanto tempo você se colocou
naquele espírito original… E… Por necessidade você precisa mudar… Eu vi
isso acontecer, senti isso acontecer e foi por isso que eu caí fora, foi
isso o que aconteceu com o
Libertines. Eles estavam super
felizes em viver um modo de vida que eu não podia suportar, então eles
me puseram pra fora e tentaram dar conta da banda pelo tempo que
conseguissem.